Domingo, 1 de Novembro de 2009

FOMOS O PRIMEIRO

1. Não sei como é nos outros países, mas há em Portugal um costume que me intriga particularmente que é o de toda a gente querer afirmar-se como ‘dona’ de um determinado espaço ou movimentação pública. Passo a explicar: de cada vez que uma praia, por exemplo, entra na moda, tipo Comporta, Moledo, Manta Rota, não há português que não jure sempre lá ter passado os verões, ‘desde que me lembro, muito antes de isto agora ser o que é!’. O enigmático é que a ser verdade, há certos paraísos, agora destinos fashion, que já seriam então muito fashion desde os anos 50, 60 ou 70, tanta gente jura frequentá-los desde o berço. O que, se nalguns casos possa ser verdade, a julgar pela imensidão dos testemunhos tipo ‘isto antes era muito diferente’, há um paradoxo que, desde logo, torna impossível a convivência do conceito massificador da moda, com a paz retratada nos relatos que se pretendem oferecer como ‘o primeiro no local’, tal é o número que chama a si essa virtude. E isto não é uma variável. É uma constante. Há muita gente por aí que não só descobriu Cacela-Velha, Mira ou S. Martinho, mas que passou simultaneamente a infância em sete ou oito praias distintas. Todas suas e só suas, onde antes somente havia ‘pescadores’. Ah! Esse folclore do imaginário colectivo que vê pescadores em todo o lado e onde agora pululam discotecas. A saudade com que adolescentes e mais velhos se referem à faina marítima, a essa imensa mole proletária dos mares: as calças arregaçadas e camisas xadrez, num misto de Kurt Cobain e Zé dos Polvos, muito antes da avalanche do DJ Isto e DJ Aquilo terem desvirgindado este recanto sagrado com os seus sons bum-tch-bum-tch-bum techno. Porventura eles próprios tornados DJ’s pela força sociológica destas movimentações estivais, os pescadores idos passeiam agora por entre perfumes de Free-Shop e margaridas no cabelo, sob o nome de MC Faneca e  VJ Sardine. Oh! Como vão longe os tempos em que para aqui ‘vinha sozinho mais a esposa, pela antiga estrada de terra e não havia esplanadas de cadeiras verdes nem jeeps em cima das dunas’.

 

2. A este propósito, também somos peritos em reivindicar como nosso um restaurante, um bar, agora caídos na desgraça, para nós claro, das garras da moda. ‘Porque eu sempre lá fui jantar, ainda aquilo era uma tasca’. E lá vem o repositório do folclore piscatório, agora disfarçado de fadistas, salpicões e azulejos com manguitos. Quem diria que, para enfatizarmos o conhecimento de há anos e anos de tal ou tal restaurante, o tenhamos de degradar ao ponto da bisca lambida, do calendário do Júlio dos Pneus ou das contas feitas a lápis no mármore do balcão? Há em todos nós uma imensa vontade de passado, uma saudade faduncha de coitadinho que nos faz exagerar ao ponto da caricatura locais que chamamos de ‘nossos’. Isto na esquizofrénica tentativa de, simultaneamente, seduzir os que desconhecem, agigantando-nos aos seus olhos, e expulsar os usurpadores, aqueles que vieram depois, que trazem as criancinhas a correr por entre as mesas aos domingos e umas louras duvidosas durante a semana. Em suma, adoramos dizer que fomos os primeiros a descobrir a tendência, antes desta virar moda.

 

3. Somos todos visionários: foi graças a nós que a Madonna é quem é, ‘porque antes era uma desgraçada a tentar furar, mas eu sempre soube que ela ia lá’. E por aí fora. Adoramos ser ‘descobridores’ de coisas ‘novas’. Mas a realidade é bem diferente: somos uns carneiros a quem só o que virou lugar-comum é apelativo. Ansiamos pelo aval medíocre da multidão, para nos sentirmos protegidos nas opções que fazemos. Precisamos de tops nas livrarias para saber que livro comprar. E se não estiver logo entre os três primeiros, duvidamos e vamos ao de cima. Sobretudo quando não sabemos o que oferecer e, arrebatados por um golpe de súbito intelectualismo, optamos ‘pelas leituras’, sabendo de antemão que a prenda irá directa para os arrumos na garagem e que o aniversariante nunca na vida leu mais que o “No teu Deserto” ou “As palavras que nunca te direi”. Dois títulos explícitos do divórcio entre moda e literatura. Dostoievsky? Quem é? Em que filme aparece? Não é aquele cozinheiro polaco do Bar do Meco? Vamos aos restaurantes onde se vai. Ponto. E quantas vezes a cozinha é uma fraude mas fica mal dizer que, para comer, o sítio é uma valente merda? As praias que assumimos como pertencentes à família há gerações, são locais aos quais não dá nenhum jeito ir, mas, noblesse oblige, é lá que está o rebanho que avaliza aquele mar e aquele pedaço de areia como ‘in’. Precisamos do conforto do colectivo para não nos sentirmos sós, ridículos, numa praia qualquer, sem nome e deserta, onde não nos chega a limpidez das águas, precisamos da sujidade das pessoas. No fundo, somos uns seguidores de sondagens que já nem sequer equacionam o valor da liberdade. Todos somos sancionados, revistos, escrutinados a todo o instante. Para sermos alguém, procuramos identidade onde ela nunca existiu. Perdemos a nossa e abdicamos do melhor que temos: a capacidade de escolher.

 

 

Pedro Abrunhosa

 

Porto, 1 de Novembro de 2009

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 17:02
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